O que o projeto do CRESP sinaliza para Pernambuco? Que o Sertão entrou no mapa da pesquisa em infraestrutura digital. A Axia Energia vai investir R$ 20 milhões num data center experimental no Centro de Referência em Energia Solar de Petrolina, usando calor de uma planta solar para refrigerar servidores. É um laboratório, não um data center comercial.
O que é o CRESP
CRESP é a sigla de Centro de Referência em Energia Solar de Petrolina. Fica na zona rural do município e funciona como um polo de pesquisa, desenvolvimento e inovação em energia solar. O centro é ligado à Axia Energia, nova marca da Eletrobras, grupo que controla a antiga Chesf, e recebe projetos financiados pelo programa de P&D (pesquisa e desenvolvimento) regulado pela ANEEL.
A escolha de Petrolina não é casual. O Sertão do São Francisco tem uma das maiores irradiações solares do país, céu limpo na maior parte do ano e está próximo de uma infraestrutura de transmissão construída ao longo de décadas para escoar a energia das usinas do rio, como Sobradinho.
O destaque técnico do CRESP é uma planta solar de torre central com alta concentração fotovoltaica (HCPV), que usa tecnologia da australiana RayGen. Nela, um campo de espelhos (heliostatos) acompanha o sol e concentra a radiação no alto de uma torre, onde ficam módulos fotovoltaicos de alta eficiência. Segundo a divulgação do projeto, é a segunda planta desse tipo em operação no mundo. Além de eletricidade, o sistema gera calor, e é esse calor que interessa ao data center.
O projeto do data center experimental
O investimento anunciado pela Axia Energia é de R$ 20 milhões. A proposta é testar uma infraestrutura que integre três coisas: geração solar de alta tecnologia, armazenamento de energia térmica e refrigeração inteligente para servidores.
A lógica é simples de explicar. A planta HCPV precisa ser resfriada e produz calor excedente. Em vez de jogar esse calor fora, o projeto vai usá-lo para alimentar chillers de absorção, equipamentos que produzem água gelada a partir de uma fonte de calor, e não de um compressor elétrico. Essa água gelada climatiza a sala de servidores.
Se funcionar como esperado, o data center reduz a dependência dos chillers elétricos convencionais, que estão entre os maiores consumidores de energia de qualquer data center. Para entender o tamanho desse consumo num projeto típico, veja a carga elétrica da refrigeração de data center.
Ponto-chave: o projeto do CRESP é um experimento de P&D. O objetivo é validar a tecnologia de refrigeração com calor solar, não colocar no ar um data center comercial de dezenas de megawatts. Quem ler o anúncio como "Petrolina vai ter um hyperscale" está lendo errado.
Por que a refrigeração é o centro da aposta
Num data center, quase toda a energia que entra nos servidores sai como calor. Retirar esse calor custa energia. Em climas quentes como o do Sertão, onde as temperaturas passam com frequência dos 30 °C, a refrigeração pesa ainda mais na conta.
É por isso que o experimento de Petrolina chama atenção: ele ataca justamente a parte do consumo que mais cresce com a inteligência artificial, cujos servidores concentram muito mais potência por rack. Discutimos esse crescimento em IA e consumo de energia no Brasil até 2030.
| Tecnologia de refrigeração | Fonte de energia | Vantagem | Limitação no Sertão |
|---|---|---|---|
| Chiller elétrico convencional | Eletricidade (compressor) | Tecnologia madura e compacta | Consumo alto, agravado pelo calor ambiente |
| Free cooling (ar externo) | Ventiladores | Muito eficiente em clima frio | Pouco aproveitável com temperaturas acima de 30 °C |
| Resfriamento evaporativo | Água + ventiladores | Bom desempenho em clima seco | Consumo de água em região de semiárido |
| Chiller de absorção com calor solar (CRESP) | Calor da planta solar | Usa calor que seria desperdiçado e reduz a carga elétrica | Depende de fonte térmica constante e armazenamento |
O armazenamento térmico é a peça que fecha a conta. Servidor funciona 24 horas; o sol, não. Guardar calor durante o dia para manter a absorção funcionando à noite é parte do que será testado.
O que o projeto sinaliza para Pernambuco
Mesmo sendo um experimento, o data center do CRESP manda quatro recados para quem investe ou opera no estado.
1. O Sertão virou laboratório da economia digital. Até pouco tempo, data center no Nordeste era sinônimo de Fortaleza, por causa dos cabos submarinos. Petrolina entra no debate por outro motivo: energia renovável e espaço. Isso tende a atrair pesquisa, startups e, no médio prazo, projetos de borda (edge), menores e mais próximos dos usuários.
2. A rede de distribuição está se preparando. A Neoenergia Pernambuco anunciou um plano de R$ 377 milhões para Petrolina entre 2026 e 2030, com nova subestação e reforço da rede, citando entre os vetores de crescimento a agroindústria, a geração solar e projetos de tecnologia como data centers. Detalhamos esse plano em R$ 377 milhões em Petrolina.
3. Energia renovável virou requisito, não só marketing. O novo regime federal de incentivos para data centers, o Redata, condiciona os benefícios ao uso de energia limpa ou renovável e a metas de eficiência no uso da água. A regulamentação ainda está sendo concluída, mas a direção é clara: regiões com sol, vento e conexão à rede básica ganham pontos.
4. Sobra de energia na região pode ganhar destino. O Nordeste convive com cortes de geração renovável (curtailment) por falta de demanda local e de transmissão. Cargas grandes e estáveis, como data centers, são vistas como uma forma de consumir essa energia perto de onde ela é gerada. Veja o problema em curtailment: por que geradores estão sendo desligados.
O que ainda não está resolvido
Um bom planejamento olha os dois lados. Para um data center comercial no Sertão, quatro pontos ainda pesam contra:
- Calor ambiente: o mesmo sol que gera energia aumenta a carga de refrigeração. Sem tecnologias como a testada no CRESP, o consumo de climatização é maior que em regiões amenas.
- Água: o semiárido limita sistemas evaporativos, e as regras do Redata devem cobrar eficiência hídrica.
- Conectividade: data centers dependem de rotas de fibra redundantes e de proximidade com pontos de troca de tráfego. O interior ainda está atrás das capitais nisso.
- Fila de conexão: projetos de grande porte disputam acesso à rede básica com usinas e outros consumidores. Veja o cenário em 54,2 GW em pedidos de conexão.
Para entender o efeito de uma carga realmente grande sobre o sistema elétrico de uma região, leia por que um data center de 300 MW muda o planejamento elétrico.
Para quem planeja infraestrutura crítica no Vale
A maioria das empresas do Vale do São Francisco não vai construir um data center, mas muitas já operam salas de servidores, centrais de monitoramento de packing houses, sistemas de rastreabilidade para exportação e automação de irrigação. A lição do CRESP vale para elas também: refrigeração e qualidade de energia decidem o custo e a disponibilidade.
A tabela abaixo mostra, como referência, como o porte da instalação muda o tipo de conexão com a rede. Os valores são de referência de 2026; confirme com estudo e orçamento.
| Porte da instalação crítica | Potência típica | Conexão usual | Prazo de referência |
|---|---|---|---|
| Sala de TI corporativa | 10 a 75 kW | Baixa tensão ou subestação existente da empresa | 30 a 90 dias |
| Data center de borda (edge) | 0,3 a 2 MW | Média tensão (13,8 kV) com subestação própria | 4 a 10 meses |
| Data center regional | 5 a 30 MW | Alta tensão (69 kV ou 138 kV), em geral com subestação dedicada | 1 a 3 anos |
| Campus de grande porte | Acima de 30 MW | Rede básica (230 kV ou 500 kV), com estudos do ONS | 3 anos ou mais |
Viabilidade de conexão
Consulte a distribuidora ou a transmissora sobre a capacidade disponível no ponto pretendido. Proximidade de linha de transmissão ajuda, mas também traz restrições de faixa de servidão.
Estratégia de refrigeração e água
Defina a tecnologia de climatização considerando o calor do Sertão e a disponibilidade de água. Ela pode representar uma parcela grande da demanda elétrica total.
Energia renovável e armazenamento
Avalie solar própria, contratos de energia renovável e baterias (BESS) para atender requisitos de incentivo e reduzir custo na ponta.
Subestação, proteção e laudos
Execute conforme NBR 14039, NBR 5410, NBR 5419 (SPDA, importante numa região com descargas atmosféricas) e as normas NDU da Neoenergia, com documentação exigida pela NR-10.
Atenção: sala de servidores instalada "no improviso", sem aterramento adequado, DPS e alimentação dedicada, é a principal causa de paradas que vemos em empresas do interior. Antes de pensar em data center, revise a infraestrutura da sua sala de TI.
Vai instalar infraestrutura crítica no Vale do São Francisco?
A Exitogrid projeta subestações, alimentação de salas de TI, SPDA e solar para empresas do Sertão e de todo o Nordeste. Somos credenciados na Neoenergia (Tipos 1 a 6) e atuamos em PE, AL, PB e RN.
Engenheira Eletricista – Responsável Técnica da Exitogrid · CREA-PE nº 182427058-5
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